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Recortes sociais

8/18/2020 Mandy Carvalho 0 Comments


Sempre que vejo alguém no meu ciclo social e penso sobre as minorias que são abordadas em nossa sociedade, paro para pensar em uma época em que eu, uns bons anos mais nova, não fazia ideia o que isso significava e muito menos, os diferentes recortes sociais em que cada uma delas pertence.



Se para mim já era difícil entender isso, imagina para as pessoas mais velhas - que já possuem princípios e valores tão interiorizados e intrínsecos, que qualquer tentativa de mudança de paradigma, parece um esforço herculano.

Dos recortes sociais que mais me chamavam a atenção a uns 10 anos atrás, era obviamente o de classe social e étnico. Minha cabeça pouco desconstruída, não encontrava outros retratos do ser humano para se refletir tanto, porque esses dois faziam parte do meu dia a dia na época: mãe negra, que me fez herdar cabelo cacheado - alvo de muitos comentários racistas - e por morar na periferia - ser pobre sempre foi um tabu né?

Por conta disto, eu não parava para pensar muito sobre homofobia, xenofobia, gordofobia, transfobia e tantas outras 'ias' que existem. Fora outros recortes que hoje também são bem evidentes, mas ainda alvos de muitos preconceitos como: tatuagens, cabelos coloridos, piercings - que para muitas pessoas ainda é sinônimo de vadiagem, falta de caráter ou até mesmo, passa pouca credibilidade. Quem nunca deixou de mostrar sua identidade através de um visual diferente, por medo de perder empregos?

E nem só isso, mas para minha vida, o mais doído de todos: o fato de ser mulher. O feminismo quando entrou na minha vida, veio forte. Houve ainda uma época em que eu militava sobre tudo. Hoje dei uma aliviada. Sabe por que? Porque nem todo mundo é capaz de ser tão desconstruído como eu fui e sou. Ainda me quebro todos os dias para me remodelar em uma versão melhor de mim mesma.

Mas essa foi uma escolha consciente e evoluída de minha parte e de tantas outras pessoas que encabeçam esses assuntos: seja na mídia ou no círculo de amigos. Então, onde entram os recortes sociais para os mais velhos?

Acredito muito em empatia. Sei que intolerância é um gosto amargo difícil de engolir. E aqui não estou dizendo que devemos aceitar tudo. Muito pelo contrário! Racismo - graças ao bom Deus - é crime e homofobia está cada vez mais sendo combatida. Infelizmente o Brasil ainda é o país que mais agride homossexuais e trans no mundo. Mas espero que esses dados mudem. De verdade.

O que quero dizer aqui com empatia, são nos casos mais lights. Muitas vezes eu não tolerava um amigo que dizia um comentário machista - as vezes sem nem saber - e já agredia em palavras nervosas e um discurso que muitas vezes, causava mais dor nos outros, do que a ignorância deles havia causado em mim. Então parei e pensei: cada um tem seu tempo e processo de desconstrução e devemos respeitar e ajudar nisso.

Meus pais mesmos foram e ainda são pessoas que cada vez que os encontro, deixo uma lição de como alguns discursos e palavras, podem conotar significados negativos para alguns recortes sociais e minorias. E com paciência e argumentos, eu os ensino a ter mais empatia e respeito por aqueles que lutam todos os dias por mais reconhecimento e representatividade.

Esses dias estava assistindo alguns canais no youtube falando inclusive, sobre pessoas que sofrem com doenças crônicas e precisam assimilar na sua rotina, acessórios em seus corpos que aumentam sua qualidade de vida, mas os destoam da maioria e isso faz com que as pessoas os tratem de forma diferenciada. Caramba! Isso nunca tinha passado pela minha cabeça. Vivendo e aprendendo...

Então a mensagem que eu quero deixar aqui é: seja você homossexual, bissexual, pan, cis, trans, negro, tatuado, colorido, deficiente, mulher, bem magra, gorda... pense que isso são apenas características que fazem você ser quem você é. Para os preconceituosos, pense que mesmo que acredite se encaixar em algum padrão estabelecido pela mídia, acredite, tem sempre um recorte perdido por aí que talvez você não enxergue, mas que não necessariamente te limita. Então não limite os outros e trate todos com respeito.

Eu, por exemplo, sou muito magra. Sempre fui. E não pense que por eu ser magérrima, que eu não sofria comentários preconceituosos. Já me perguntaram se tinha anorexia e muitos achavam que eu era menos mulher, por não ser bem desenvolvida como as outras. Ou seja, enquanto tinham meninas com distúrbios alimentares porque se achavam gordas, estava eu sendo alvo de constantes piadas por ser muito magra. No final, não importa como eu fosse. Percebi que sempre iriam achar um recorte para me rotularem e debocharem. Foi aí que começou minha jornada de aceitação.

Na aceitação, veio o entendimento que no final, estava todo mundo em uma luta constante dentro de si com suas estimas e seus demônios. A diferença era que uns escolheram o Amor e outros, usavam os outros como saco de pancadas para seus próprios defeitos. No final, minha militância exacerbada não iria mudar a cabeça daqueles que não tinham a capacidade ou a vontade de serem desconstruídos, como eu - principalmente os mais velhos, que a anos estavam presos em ciclos negativos e de ódio. Mas isso não significa que eles também não merecem uma chance de serem ensinados.

Então eu aprendi a ser compreensiva e me amar em primeiro lugar, ajudou muito a não deixar que isso me afetasse como antes. Ainda me machuca as vezes. Mas hoje quando eu posso ensinar, eu ensino. E aprendo também. Para os casos extremos, espero justiça. Para os brandos, eu sinto muito por você ser assim e vá procurar ajuda, terapia. E se informar também. Estamos todos enfrentando batalhas, todos os dias, as quais você desconhece. Na dúvida, seja gentil e respeite. Sempre.

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